23/04/2014 – Abertura da exposição Cães sem plumas no Mamam com campanha para a Ciclotela

A exposição Cães Sem Plumas aconteceu no Mamam em Recife, de 23 de abril a 6 de julho de 2014. Foi uma realização conjunta do Mamam e da Fundaj. Parte do projeto de pesquisa de mesmo nome realizado por Moacir dos Anjos, curador da mostra.

A itinerância do Museu da Beira da Linha do Coque na sala Vicente do Rêgo Monteiro da Fundaj-Derby aconteceu no mesmo período, inserida no programa Políticas da Arte da Fundação, sob a mesma curadoria.

O Museu participou da abertura de Cães sem Plumas, convidando o público a visitar-nos na Fundaj e apresentando a campanha para construção da Ciclotela do Coque. Os coordenadores do Ponto de Cultura Espaço Livre do Coque levaram a carcaça da Ciclotela e uma televisão com o vídeo da campanha para o Mamam e o instalaram no hall térreo da escadaria. No dia seguinte os equipamentos voltaram para a exposição no Derby. A seguir nossa equipe foi público participante nos três debates vinculados ao projeto Cães sem Plumas que ocorreram na sala Aluísio Magalhães, Fundaj-Derby.

 

CÃES SEM PLUMAS
Cães sem Plumas reúne artistas visuais brasileiros de gerações diversas em torno de uma invenção de linguagem de João Cabral de Melo Neto. No poema “O Cão sem Plumas” (1950), o escritor toma o Rio Capibaribe como guia da descrição que faz do Recife e de seus habitantes que nada possuem. Rio que corta a cidade “como uma rua / é passada por um cachorro”, ou como “uma fruta / por uma espada”. O Capibaribe e esses moradores do Recife seriam ambos “cães sem plumas”, expressão que parece designar, em forma de radical paradoxo, situações de destituição absoluta. Um “cão sem plumas”, diz o poeta, “é quando uma árvore sem voz. / É quando de um pássaro / suas raízes no ar. / É quando a alguma coisa / roem tão fundo / até o que não tem”. Esta exposição é sobre aqueles que, no Brasil, vivem à margem de quase tudo que outros já alcançaram, e para as quais somente existe interdição.
São “cães sem plumas” a maior parte dos índios deste país, acossados por doenças e pela ganância infinda sobre as terras a que pertencem. Assim como o são os loucos e presidiários que apodrecem em um sistema curativo e prisional falido. Ou as crianças e adolescentes que moram nas ruas e gastam o pouco tempo de vida que ainda vão ter entre esmolas, delitos e o inevitável enlace com a dependência química. São também aqueles que, frente à violência no campo ou à voracidade especulativa sobre o espaço urbano, são retirados à força de seus lugares de vida e destituídos dos meios de sobrevivência. Ou os muitos de quem o Estado suspende seus direitos mais básicos, tanto no passado de exceção quanto sob um regime democrático: por serem negros, homossexuais ou simplesmente pobres. São ainda os homens e mulheres que, vítimas de uma desassistência absoluta, sequer são identificados depois de mortos. Assim como os estrangeiros que, atraídos por uma expectativa de vida melhor, terminam aviltados aqui em suas prerrogativas mais simples. É dessas pessoas, não contabilizadas no cálculo produtivista que rege e mede o avanço econômico do Brasil, que esta exposição quer dar notícia.
É certo que há vários outros danos que não são computados nesta mostra, assim como diversos outros artistas concedem a eles visibilidade social. Antes de exaurir o tema, o que se quer é aproximar assuntos ainda pouco confrontados em espaços de apresentação artística no país. É apresentar esses “cães sem plumas” como índices inequívocos de que, a despeito de ter mudado muito e beneficiado tanto os que antes pouco tinham, o Brasil permanece inaceitavelmente desigual e excludente. Esta é uma exposição sobre vidas roídas; mas não, por isso, conformada com esse estado de coisas. Em que pese todo o poder regressivo que destitui o outro no país, Cães sem Plumas é uma aposta na potência de emancipação contida nos pequenos ruídos e gestos de que a arte é tecida.
Moacir dos Anjos | Curador

 

 

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