EXPOSIÇÃO MUSEU DA BEIRA DA LINHA DO COQUE : : Moacir dos Anjos : : Fundaj

Ao conhecer o Museu da Beira da Linha do Coque em uma reunião no Edifício Pernambuco, a segunda que o Museu fazia para apresentar o projeto a um curador de arte, Moacir dos Anjos inicialmente respondeu com um convite para que o Museu integrasse a exposição Cães sem Plumas – etapa de uma pesquisa sua – que já tinha sido antecipada na Galeria Nara Roesler em São Paulo e ganharia uma versão ampliada no Mamam Recife em breve. Mas nesta etapa a pesquisa ainda estava concentrada na representação daqueles que Moacir chama de despossuídos nos trabalhos que povoam o alto circuito da arte contemporânea. Somente na etapa seguinte começaria a ser abordada a representação dos despossuídos por si mesmos. O convite foi então redirecionado: realizamos em período coincidente ao da Cães sem Plumas, a exposição Museu da Beira da Linha do Coque na Fundação Joaquim Nabuco, prédio do Derby, dentro do programa Políticas da Arte, também conduzido por Moacir. A simultaneidade permitiu que o Museu fizesse uma intervenção na abertura da exposição Cães sem Plumas e participasse dos debates da mostra.

O texto abaixo é a apresentação da exposição por Moacir.
Ele foi instalado no hall de entrada. Os demais textos da exposição ficaram na parte interna e foram todos elaborados pelo Museu.


 

Divulgação da exposição do Museu da Beira da Linha do Coque na Fundaj, 2014. Foto: PCELC.

Divulgação da exposição do Museu da Beira da Linha do Coque na Fundaj, 2014. Foto: PCELC.

EXPOSIÇÃO MUSEU DA BEIRA DA LINHA DO COQUE

Por Moacir dos Anjos

Ao longo de vários anos, a Fundação Joaquim Nabuco tem abrigado, na Galeria Vicente do Rego Monteiro, uma série de exposições que têm em comum a vontade de borrar as fronteiras entre os campos da política e da arte. Embora apresentem questões distintas, tenham procedências as mais diversas e utilizem meios de expressão diferentes, essas mostras afirmam o desejo difuso e forte, presente na produção de um número expressivo de artistas, de afirmar a potência emancipadora da criação artística. Integrantes de um projeto chamado Política da Arte, essas exposições não deixam, contudo, nenhum rastro material. Vêm de várias partes do mundo e, após algumas semanas, voltam para seus lugares de origem. Não se constitui um acervo de objetos, e nem mesmo cópias dos filmes e vídeos expostos são comumente mantidos na Fundação Joaquim Nabuco. E por não constituir acervo, seria usualmente impróprio chamar a Galeria Vicente do Rego Monteiro de museu. É preciso atentar, porém, para o fato de o conjunto de obras aqui exibidas constituir uma coleção de sensações novas, e por vezes incômodas, para aqueles que as veem e as experimentam. Para quem se deixa afetar por esses trabalhos, eles não desaparecem ao término das exposições; passam a fazer parte de um acervo simbólico passível de ser apropriado por qualquer um e que somente cresce e se consolida com o passar do tempo. Nesse sentido específico, esta galeria é, sim, um museu: um museu que não guarda objetos, mas que abriga vontades de transformação.

Acolher aqui, e por um tempo, o Museu da Beira da Linha do Coque, significa portanto trazer um museu para dentro de outro museu. É adicionar, ao acervo imaterial já exposto e coletado nestas salas em muitas exposições passadas, um outro acervo simbólico. Acervo que quer narrar as histórias do Coque, bairro da região central do Recife; e que também não precisa da concreção física dos objetos para existir, mas somente do registro audiovisual das falas dos que constituem uma comunidade que resiste, há várias décadas, a continuadas tentativas de apagamento físico e simbólico do lugar onde vivem. Resistência a uma ideia de cidade que não admite a diversidade e a diferença, e que por muito tempo teve (e por vezes ainda insiste em ter) na exclusão violenta do outro um instrumento de política urbana.

O conceito do Museu da Beira da Linha do Coque requer que ele seja itinerante. Requer que sobre as rodas de um veículo – um triciclo adaptado com projetor e tela, batizado de “ciclotela” – esses depoimentos gravados em som e imagem possam alcançar não somente todo o Coque, mas também outros bairros e outras audiências. Um museu que quer partilhar experiências passadas para que não sejam esquecidas por quem as viveu e também para que possam ser apropriadas também por quem as vive, de modo semelhante, em outros lugares da cidade. Partilha ampla do que é específico às pessoas do Coque para que alcance pessoas de outras partes; pessoas que reconhecem, nesses relatos, algo que também lhe concerne, que também lhes afeta, formando assim uma comunidade dos que por vezes não são contados como habitantes com direitos plenos à cidade. Este é um museu que afirma a dimensão ética do ato de lembrar.

Instalar o Museu da Beira da Linha do Coque temporariamente em uma galeria da Fundação Joaquim Nabuco tem ainda outras implicações, que devem ser mencionadas.  Implica, em primeiro lugar, considerar a noção do que está próximo e do que é longe. Se a distância física entre o Coque e a Fundação Joaquim Nabuco é pouco mais de um quilômetro, a distância simbólica que as separa é incomensurável, expressão de uma partilha de espaços na cidade que diz muito sobre o modo como a vida se organiza e se divide no Brasil. Se é evidente que esta parceria entre as duas instituições não pode ter a pretensão de apaziguar minimamente esta fratura, será bem sucedida se ao menos apontá-la claramente. A presença temporária do Museu da Beira da Linha do Coque na Fundação Joaquim Nabuco também implica reconhecer os limites do programa de exposições desta última, inclusive de seu projeto Política da Arte, nos quais mais se fala do outro despossuído do que se concede, a este, um espaço para que enuncie a própria fala. A mesma ressalva já feita também aqui se aplica: não se almeja, com a presença temporária do Museu da Beira da Linha do Coque nesta galeria, remediar tal situação. Já é bastante que esta questão seja trazida para consideração dos que a visitam, e que, de algum modo, alimente a discussão para projetos futuros da Fundação Joaquim Nabuco e de outras instituições.

Por fim, esta exposição possui uma utilidade, coisa que escapa à maior parte da produção artística, ciosa de manter a autonomia do mundo que cria. Ela busca, por meio de estratégias diversas (vídeos, fotografias, textos, encontros, oficinas e o que mais puder ser inventado para partilha de espaços e tempos entre quem a visita), ampliar o número de apoiadores ao projeto, de modo a que o Museu da Beira da Linha do Coque se torne itinerante de fato. Para que continue a registrar e contar histórias desse lugar em várias partes. Para que, ao mover-se, seja parte reconhecida da cidade.


 

 

Veja também:

Press-release elaborado pela Fundaj através de Martinho Patrício.

Postagens no blog da Fundaj sobre as atividades da exposição do Museu.

Notas sobre a “CÃES SEM PLUMAS”, texto de Moacir dos Anjos no Blog da Fundaj.