Moradores resgatam histórias do Coque a partir do legado de suas memórias : : Maíra Baracho : : Diário de Pernambuco Online

Reportagem no caderno Local do Diário de Pernambuco online, feita por Maíra Baracho que visitou o Coque para escrever sobre o projeto Contadores e Contadoras de Histórias do Coque e o lançamento do site do Museu da Beira da Linha do Coque.

A matéria incluiu um dos vídeos do Museu: parte da entrevista com os contadores Zezinho e Alencar em que eles falam de sua chegada ao Coque.


Moradores resgatam histórias do Coque a partir do legado de suas memórias

Relatos de 16 contadores de história da própria comunidade estão sendo gravados em vídeo para o site do Museu da Beira da Linha, que será lançado neste domingo

Por Maira Baracho – Diario de Pernambuco online

Histórias da chegada e organização das famílias na beira da linha do antigo trem surgem nos relatos de moradores como José Ribeiro, o Zezinho, de 66 anos, que nunca saiu do Coque. Foto: Ricardo Fernandes/DP/D.A Press

Histórias da chegada e organização das famílias na beira da linha do antigo trem surgem nos relatos de moradores como José Ribeiro, o Zezinho, de 66 anos, que nunca saiu do Coque. Foto: Ricardo Fernandes/DP/D.A Press

 

O museu surgiu em 2013, com a proposta de proteger a história do Coque e fortalecer a identidade da comunidade com o menor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Recife, onde moram 60 mil pessoas. Além da consolidação da memória coletiva, o projeto Contadoras e Contadores do Coque tem ainda outro desdobramento. “Falam muito daqui como um lugar de violência e crime, mas o Coque é muito mais. Resgatando essas histórias, a gente também mostra para a sociedade quem somos realmente”, explica Rildo Fernandes, 64, coordenador-geral do Ponto de Cultura Espaço Livre do Coque e morador antigo da comunidade.Zezinho, 66, e Alencar, 78, são amigos desde a infância. Cresceram juntos na comunidade do Coque, no bairro de Joana Bezerra, no Recife, e de lá nunca saíram. Juntos viram as ruas alagadas e palafitas se transformarem em vias asfaltadas e casas de alvenaria. Compartilharam histórias de alegria e amizade, cujo pano de fundo é justo o lugar que nunca quiseram deixar, onde criaram seus filhos e escolheram passar a velhice. Hoje a dupla ajuda a preservar a memória da comunidade: Estão entre os 16 contadores de história, cujas lembranças estão sendo registradas, em vídeo, no site do Museu da Beira da Linha do Coque, que será lançado neste domingo.

Lino Lopes Alencar, 78 anos, que cresceu na comunidade, no bairro de Joana Bezerra, recorda com bom humor das histórias de assombração e mistérios do lugar. Foto: Ricardo Fernandes/DP/D.A Press

Lino Lopes Alencar, 78 anos, que cresceu na comunidade, no bairro de Joana Bezerra, recorda com bom humor das histórias de assombração e mistérios do lugar. Foto: Ricardo Fernandes/DP/D.A Press

Nas lembranças compartilhadas, histórias da ocupação do espaço, da chegada das famílias e da organização das famílias na beira da linha do antigo trem. “Antigamente era atrasado. As palafitas ficavam enfiadas no chão e a água embaixo. A gente usava lasca de banana, abacaxi e quenga de coco para aterrar e fazer moradia”, lembra Zezinho, que durante anos criou mamulengos e elaborou apresentações para os vizinhos. “Não tinha cinema, não tinha nada. Eu fazia o mamulengo, mandava anunciar e botava na janela. Terminava onze horas da noite, era um divertimento. Aqui tinha procissão e um pastoril só de mulher. O Coque vivia em festa. Só não tinha pagode, como nos tempos de hoje”, conta.

A comunidade também tem seus mistérios, histórias de assombração e lendas. A porca luminosa e até um lobisomem, contos passados entre gerações. Uma das figuras marcantes, Lourdes Loba, é lembrada até hoje por Alencar. “A gente vivia junto. Todo dia ela matava um gato”, conta, sorrindo. “Me chamava para beber uma coisinha e quando chegava lá tinha uma panelada de carne. Ela dizia que era bode e a gente comia aqueles tacos de gato. Ela era braba, dava em homem aqui no Coque”, lembra. “Uma vez ela foi beber com um cabra e quando passou uma víbora na parede ela pegou, partiu no meio e ofereceu um pedaço a ele. Ele não quis e ela deu-lhe uma tapa. ‘Eu gosto de beber com homem’, ela dizia”, completa Zezinho. “Ela foi embora, morreu faz tempo. Morreu porque era morredeira, aí pensei: vou ficar por aqui mesmo”, brinca Alencar.

Para captar as histórias, Josivan Cristóvão, o matuto, 38, improvisou com canos e parafusos um tripé e com uma lâmpada fluorescente a iluminação dos vídeos. Para ele, lembrar desses episódios é preservar a identidade do Coque. “Os mais velhos vão indo embora e os netos, que vão ficando, o que vão contar sobre o Coque? Sem os moradores antigos, essas histórias iriam se perder e agora serão sempre lembradas”, diz.

No domingo, uma intensa programação cultural marca o lançamento oficial do site, que hospeda os vídeos dos contadores. O evento começa às 15h e conta com exibição de filmes, mostra fotográfica, homenagem aos contadores e apresentações da orquestra da Troça Carnavalesca Pitombeira dos Quatro Cantos e o Som na Rural. Além do lançamento do site, o evento comemora os três anos do museu e o Dia de Lutas e Conquistas dos Moradores do Coque pelo Direito a Moradia do Coque, celebrado no dia quatro de agosto.

Confira a programação completa:

Domingo, a partir das 15h

Praça Ator Barreto Junior

Lançamento do site

Exibição de filmes e fotos sobre a História do Coque, inclusive o filme “Sítio do Cajueiro: Lembrar é (R)existir!” produzido pelos alunos do Projeto Narramundo.

Homenagem aos Contadores e Contadoras de Histórias do Apresentação Orquestra Pitombeira dos 4 Cantos, de Olinda

Música e Dança com Som na Rural

Noite

Igreja São Francisco de Assis

Palestra de Frei Aloísio


 

Veja a publicação original da matéria no Diário de Pernambuco online.

 

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